Espaço Vinoarti - quarta-feira 30 dezembro 2015

O Champagne e a Queda do Czar

Há algum tempo, escrevi sobre o Príncipe Radziwiłł[1], figura que fez fama nos anos da Belle Époque, ao perder toda a fortuna da família em uma mesa de jogo em Monte Carlo. Entre se matar e beber uma garrafa magnum de Krug Clos du Mesnil, dá pra advinhar o que aconteceu…

A Família Radziwiłł[2] curiosamente, também estava presente no ocaso da Dinastia Romanoff que governou a Rússia por cerca de 500 anos, até a Revolução Comunista em 1917, mas isso é oura história.  

O livro Nicolau e Alexandra, do vencedor do Pullitzer em 1981, Robert K. Massie foi lançado em 1967, de forma que o Autor não tinha como saber que o comunismo estava fadado ao fracasso antes do fim do Século XX. O autor descreve a vida na Rússia com tanta maestria e realismo que sequer é preciso fechar os olhos para enxergar as cenas descritas.

Uma descrição muito interessante da vida russa mostra bem como foi a velha Rússia recebida por Nicolau II, denotando o contraste com o período comunista que viria a seguir. A opulência da corte era inigualável à época.

“Em 1894, São Petersburgo ainda era fiel aos desejos do Czar Pedro, o Grande. Era o centro de tudo que era avançado, tudo que era elegante e muito do que era cínico na vida russa. As grandes companhias de ópera e de balé, as orquestras sinfônicas e de câmara apresentavam obras de Glimka, Rimsky-Korsakov, Borodin, Mussorgsky e Tchaikovsky; os cidadãos liam Pushkin, Gogol, Dostoiévski, Tergenev e Tolstoi”. (grifos meus).

Esse cinismo citado levaria os mesmos nobres a conspirar contra o Czar, mal sabendo que eles próprios eram alvo maior do ódio da população, como também dos bolcheviques e mencheviques que tomariam as rédeas do País em breve. Em seu delírio conspiratório que nunca saía dos salões, vem mais uma cena surreal:

“Tudo isso com os criados passando para lá e para cá, meretrizes vendo e ouvindo, ciganos cantando e todos banhados pelo aroma de Möet e Chandon brut imperial que jorrava em abundância.”

Segundo o autor, os nobres russos eram tão dados à fanfarronice que nem mesmo a polícia secreta levou a sério a conspiração aberta que corria nos salões, enquanto o Czar abandonava o governo nas mãos da Czarina Alexandra para ficar no front da guerra e ela, por sua vez, entregava as decisões nas mãos sombrias do staret Rasputin[3], fato que precipitou a revolução.

Na opulência russa, o Champagne era a grande estrela. Daí saiu a tão propalada harmonização de Champagne e Caviar.

A opulência, contudo teve fim, não imediatamente no início da revolução Russa, mas, após o segundo golpe dos bolcheviques de Lenin, que efetivamente deitou sangue da nobreza russa e como o vinho era ligado à riqueza, a produção e a importação foi praticamente abandonada.

Mais adiante, como bem lembra Renato Ribeiro[4], isso mudou e mesmo Stalin tinha apreço pelos vinhos Massandra[5], tanto que os protegeu dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em verdade, deveria repudiá-los, pois a grandeza desses vinhos decorreu da ambição de Nicolau e do Príncipe Golitzin de ter um vinho superior ao Sauternes.

Aliás, talvez, muitos não saibam, mas o vinho está intrinsecamente ligado ao criador comunismo. Foi Karl Marx quem ditou a célebre frase: “Cuidado ao confiar em alguém que não goste de vinho”.

O Champagne, na verdade já era um hábito indissociável do Clã dos Romanoff. Seu avô Alexandre II, tinha a Casa Louis Roederer como fornecedora exclusiva da família. O famoso Cristal da Roederer surgiu a pedido do Czar; já que em razão do ambiente revolucionário incipiente, Alexandre solicitou que o Champagne viesse em garrafas transparentes; daí que nessa época, as garrafas eram feitas de cristal Baccarat.

Enfim, Nicolau foi apenas o último protagonista dessa ligação umbilical com o Champagne e até ser aprisionado e destituído do luxo, a bebida sempre foi item de primeira grandeza na corte imperial.

É interessante notar que, como o Champagne era a bebida favorita da nobreza russa; dizem que com a queda da monarquia, com ela veio o ostracismo…Será????



[1] http://www.vinoarti.com.br/espaco-vinoarti/champagne-a-belle-epoque/

[2] Radziwiłł é o nome de uma das famílias mais antigas e ricas de nobreza lituano-polonesa.

[3] O termo staret traduz a ideia dos místicos russos, em geral, monges siberianos, que corriam o império fazendo pregações e eram considerados sagrados pela população campesina. Rasputin, o mais famoso de todos teve drástico papel na queda da dinastia Romanoff.

[4] Ribeiro, Renato. Em Volta do Vinho – Globo Livros, 2004.

[5] Vinho de sobremesa da Criméia, considerado de grande refinamento e invejável longevidade.

Tags:, , , ,

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


3 + sete =

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>