Espaço Vinoarti - quinta-feira 05 fevereiro 2015

“A VINHA”


 

Sonhei que esta mortal parte minha

Se metamorfoseara numa vinha,

A qual, dando volta sobre volta,

Cativara minha Lúcia graciosa.

Assim, suas pernas e quadris

Co’as minhas gavinhas surpreendi;

Seu ventre, nádegas, cintura,

Rodeei com minhas brandas nervuras;

Em torno da cabeça, eu serpente,

Grandes rácimos (ocultos entre

As folhas) prendi às suas têmporas.

Do jovem Baco era Lúcia imagem,

Dele preso em sua folhagem.

No colo meus cachos a envolviam,

De seus braços e mãos restringiam

Os gestos (e ali um só, dessarte,

Prisioneiro fizeram tais partes).

Mas quando com folhas fui tapar

As partes que as donzelas do olhar

Alheio guardam, tanto prazer

Eu tive que acordei para ver,

(Ai de mim!) ver esta carne minha

Feita mais um tronco que uma vinha.

 

(Do livro “Poesia Erótica”. Trad.: José Paulo Paes[1])

ROBERT HERRICK, poeta inglês (1592 – 1986).


[1] PAES, José Paulo. Poesia erótica. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

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