Entrevistas - sábado 06 outubro 2012

Longevidade dos Vinhos Brancos de Altitude…por Orgalindo Bettú (Villa Francioni)

Em entrevista com Orgalindo Bettú, Enólogo e Diretor Técnico da Villa Francioni, tivemos a oportunidade de esclarecer de forma mais detalhada esse novo paradigma no Brasil, de termos vinhos brancos de guarda na Serra Catarinense.  Um tema que ganhou bastante repercussão após entrevista no programa Globo Repórter da Rede Globo e que vem causando curiosidade no público e na mídia especializada.

 

Vinoarti: Recentemente, você disse em entrevista para o programa Globo Repórter, da Rede Globo, que os vinhos brancos de São Joaquim, em especial, da Villa Francioni, têm uma surpreendente longevidade. O Assunto tem dado bastante repercussão e, sobretudo, causado muita curiosidade. Você poderia explicar o fenômeno de forma mais detalhada, já que foi curto o tempo na TV?

Bettú: Bom a Questão longevidade é influenciada por uma serie de fatores, e, sempre que deixamos quaisquer um deles de lado, a vida vai diminuindo. É parecido com nossa saúde. Quanto mais cuidada e em melhores condições do meio em que se vive, a tendência é de que tenhamos vidas mais  longas e saudáveis.

 

Vinoarti: A princípio, quais seriam esses fatores?

Bettú: A região, o pH (acidez), a barrica, e as tecnologias de vinificação são os fatores que mais influenciam no potencial de um vinho.

 

Vinoarti: Mas, no caso de Santa Catarina, certamente o clima é um fator determinante…

Bettú: As temperaturas médias relativamente frias que ocorrem em São Joaquim fazem com que naturalmente as uvas sejam mais ácidas e consequentemente os vinhos também. Este já é um  ponto positivo para que os vinhos adquiram características boas para um amadurecimento prolongado, entretanto, não depende só disso. Importantíssimo também é a  grande diferença de temperatura entre o dia e a noite. As substâncias bem quistas na uva para o vinho, são sintetizadas durante o dia e degradadas a noite. Nas regiões de maior altitude, no nosso caso, como naturalmente as noites são mais frias, praticamente não ocorre degradação, portanto,  a acidez  e outros compostos ficam mais concentrados.

 

Vinoarti: E qual o peso da tecnologia nesse contexto?

Bettú: A passagem por barricas com batonage, ocasionando uma ótima polimerização dos taninos  aumentando desta forma o potencial de estabilização,  também ajuda na vida longa.  Além disso, a utilização de equipamentos que evitem ao máximo a oxigenação desnecessária e o real domínio nos controles de temperatura em todas as fases do processo, conhecimentos adequados na elaboração e na determinação do ponto de maturação das uvas,  são todos fatores muito importantes para uma vida saudável e longa. Vejam com isso, que longevidade de um vinho, depende do conjunto e não exclusivamente de um fator.

 

Vinoarti: Dada a diferença de cada terroir, oposta, a uma tecnologia cada vez mais globalizada, me parece que, neste caso específico dos vinhos de altitude, o terroir é o fator preponderante nessa equação. Procede?

Bettú: Se fizermos uma comparação por exemplo, do porque que os vinhos da bourgogne duram mais do que os californianos, poderíamos dizer que a temperatura tem influencia significativa.

Certamente existem vinhos muito bons e tecnologias de ponta na Califórnia, entretanto, é muito quente por lá, já com isso, a vida principalmente dos brancos vai diminuindo. Isso justifica a força que um determinado clima tem sobre as características de um vinho

 

Vinoarti: Já que falamos em comparação, poderíamos fazer um paralelo em termos de Brasil, ou seja, explicar, por exemplo, porque os brancos da Serra Gaúcha não possuem a mesma longevidade?

Bettú: Se compararmos vinhos da serra gaúcha com os daqui (serra catarinense) as temperaturas, a pesar de serem diferentes são relativamente parecidas, isto é, temos boa acidez tanto na serra gaúcha bem como aqui. Mas por que os vinhos daqui duram comprovadamente mais aos da serra gaúcha?  Ali entra em cena o conjunto dos fatores citados, terroir, conhecimento, equipamento, tecnologias etc..

 

Vinoarti: Particularmente, acredito que não basta apenas um bom terroir, nem tampouco disponibilidade tecnológica, já que o feeling e o talento do enólogo são peças-chave nessa composição de fatores.

Bettú: A falta de um único fator atrapalha bastante para obter um vinho longevo, enquanto que com um único fator, dificilmente poderemos ter um bom vinho longevo.

Em síntese, as características edafoclimáticas e a mão do homem, sempre determinarão a tipicidade de um bom vinho, mas, sempre regidas pelas condições (clima e solo) e o conhecimento disponíveis que são aplicados, invariavelmente condicionados ao grau de amor e dedicação impostos.

 

Vinoarti: Considerando então que os brancos em geral não possuem essa característica da longevidade, podemos dizer que a Villa Francioni pode estar traçando um novo paradigma em relação aos chamados vinhos de altitude e, porque não dizer, mudando o paradigma dos vinhos brancos no cenário vitivinícola brasileiro?

Bettú: Estou convicto disso. A prova mais evidente é o Chardonnay Lote I, elaborado com a safra de 2004 e engarrafado em 2005, sendo que numa recente degustação, constatamos tecnicamente que ainda pode evoluir. Mas, mesmo que não evolua mais muito tempo, vejam que já são oito anos de evolução. Há bem pouco tempo, isso não era fato  comum em vinhos brasileiros.  Finalizando eu digo, viva o bom vinho brasileiro!

Vinoarti: Bettú, obrigado pela entrevista e parabéns pelo sucesso. Particularmente, sou fã declarado dos vinhos da Villa Francioni; e é uma grande honra tê-lo como primeiro entrevistado do site VinoArti.

Entrevista realizada em 06 de outubro de 2012, via internet.

Fotos do post: Cello Carneiro

 

 

 

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4 comentário(s) sobre “Longevidade dos Vinhos Brancos de Altitude…por Orgalindo Bettú (Villa Francioni)

  1. Marcelo, parabéns por essa entrevista em que o Orgalindo nos tira as dúvidas sobre o potencial de envelhecimento dos vinhos.

    Abraços.

  2. Acho que podemos mesmo estar diante de uma grande mudança de paradigmas, já que não é em qualquer lugar do mundo que os brancos alcançam boa longevidade.

    Obrigado pela visita, Oscar. Continue fazendo esse maravilhoso trabalho em prol dos vinhos e, sobretudo dos enófilos.

    Enoabraços

  3. Parabéns pela entrevista. Não tinha dado muita atenção a elas até agora. Vi hoje na sua página do Facebook.
    Fiquei impressionado com a longevidade desses vinhos. Nunca experimentei os brancos da Vila Francioni.

    Valeu!

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