Entrevistas - quarta-feira 27 fevereiro 2013

Daniel Arraspide (Uru): O Poder da Tannat

Nessa segunda entrevista, tive uma conversa bastante esclarecedora com Daniel Arraspide, sommelier uruguaio, sobre a Tannat e os vinhos de sue País. Daniel é jurado internacional de vinhos e atualmente, dedica-se à divulgação de informações sobre questões relacionadas com a vitivinicultura, em especial, vinhos uruguaios, escrevendo para a mídia no Uruguai, Brasil e México.

Vinoarti: Daniel, quando se pensa em Tannat, se pensa em Uruguai e o seu maior arauto no Brasil chama-se Daniel Arraspide. Como você vê o espaço dos vinhos uruguaios, em especial, da Tannat, no mercado brasileiro no que tange a divulgação?

DA: Marcelo, agradeço a suas palavras, que eu acho imerecidas, sendo que existem no meu País muitas pessoas qualificadas para falar em Tannat. Falando em espaço e divulgação dos vinhos uruguaios no Brasil (não apenas dos Tannat’s) posso dizer que vejo o trabalho feito até o momento, muito fraco. Ainda o Uruguai tem por diante um forte trabalho a fazer, investindo em marketing e estratégias de mercado que viabilizem uma melhor imagem dos vinhos por cá produzidos.

 

Vinoarti: A que você atribui o fato de a Tannat ser mais expressiva no Uruguai do que na própria França?

DA: O desenvolvimento que a Tannat apresenta no meu País foi atingido logo após muitos anos de trabalho, e isso é uma coisa que hoje se vê refletido na diversidade de Tannat’s que os produtores oferecem. O fato de que no Uruguai seja “mais expressiva” que na França (seu berço) deve-se às grandes plantações da casta que o Uruguai possui, e aos estilos de vinificação que o mercado hoje dispõe. É bom lembrar que a Tannat pode ser encontrada em 6 versões: como vinho rosé, tinto jovem (inclusive de maceração carbônica), tinto de guarda, licoroso, destilado (grappa), e até como espumante tinto.

 

Vinoarti: Hoje, o Resveratrol é praticamente uma unanimidade na equação vinho x saúde. Procede a informação de que a Tannat é a uva com maior concentração de Resveratrol e, consequentemente, dos radicais livres que beneficiam à saúde?

DA: Pois é, os anúncios de que a Tannat é uma uva que possui alto percentual de Reverastrol é verdade; os estudos assim o demonstrarem, e os benefícios para a saúde são traduzidos nos radicais livres que retardam o envelhecimento de quem – na dose certa – consome este vinho.

 

Vinoarti: Por outro lado, a Tannat é reconhecidamente uma uva muito “dura”. Até que ponto isso atrapalha sua inserção no mercado?

DA: A Tannat ganhou essa fama, pois durante muito tempo foi colhida sem chegar amadurecer no estágio ideal, mas, com o trabalho feito na atualidade em vinhedos e vinícolas, essa rusticidade da Tannat que antigamente foi comum no vinho produzido com ela, hoje se tornou num vinho muito mais macio e fácil de beber, com taninos arredondados e bem doces, claro, mantendo a característica da uva: a potência. Ainda existem vinícolas fazendo aquele estilo “duro”, mas, na maioria dos casos, os Tannat que estão se produzindo não apresentam resistências nos mercados internacionais para sua inserção.

 

Vinoarti: Considerando que não se trata de uma uva propícia a bate papo, que efetivamente pede comida pra acompanhar, que harmonizações você recomendaria ao leitor em relação à Tannat?

DA: Você fala certo, mas, afirmar isso é falar em geral. Existe aquilo de que “o Tannat é o melhor companheiro de um bom churrasco gorduroso” que se bem tem bastante de acertado, não sempre é assim. Hoje se pode pensar em harmonizar um Tannat jovem vinificado ao estilo Beaujolais como o que produz Pizzorno com um peixe gorduroso, um salmão na grelha por exemplo; ou harmonizar um espumante “Negro” como o produzido pela Pisano com uns pastéis fritos de mollejas (bochechas de gado), ou uma massa (por exemplo, um tortei recheado de pato com manteiga de sálvia) com um rose do estilo feito por Castillo Viejo, que fermenta um vinho Tannat rosado em carvalho. Claro que falar de uma harmonização típica é pensar em umas belas costelas de cordeiro feitas nas brasas, com um potente Tannat tinto dos que temos muitos e muito bons, e isso é para comer ajoelhado.

 

Vinoarti: Alguns produtores no Brasil estão se arriscando com a Tannat. Qual a sua impressão em relação a esses vinhos e, na sua opinião, qual o terroir que mais se adapta a ela?

DA: Na verdade não vejo problema algum com o bom desenvolvimento que pode ter a Tannat no Sul do Brasil, pois em termos de clima não é tão diferente com o Uruguai, deixando de lado a diferença com a altitude em algumas partes da Serra. Tenho degustado vários vinhos brasileiros feitos com esta casta e fiquei muito surpreso com os resultados atingidos pelos produtores. Quanto a indicar uma região, eu diria que, a Campanha Gaúcha pode ser o local onde a casta apresenta melhor aptidão, embora alguns vinhos da Serra tenham-me surpreendido bastante também.

 

Vinoarti: Você é bastante fluente – e mesmo influente – também no que diz respeito aos vinhos brasileiros. Você acha que já estamos aptos a obter uma posição melhor no mercado mundial?

DA: Eu acho que é o momento dos vinhos do Brasil, de dar conhecer ao mundo que o Brasil não é apenas praias, futebol, e caipirinha. Mas, esse convencimento tem que vir primeiro de dentro, os brasileiros tem que se auto-convencer de que tem a potencialidade de fazer produtos ótimos (para isso basta dar uma olhada na qualidade crescente dos espumantes brasileiros) e só aí, isso vai ajudar para subir patamar a patamar, logrando uma melhor posição no mercado mundial que tem que ser trabalhado com o foco colocado na qualidade e diversidade que os produtores tem para oferecer aos consumidores.

 

Vinoarti: Além dos vinhos Tannat, quais seriam as opções de outras castas plantadas no Uruguai com chances de aparecer bem no mercado internacional?

DA: Olha, eu destacaria uma casta branca que se adaptou muito bem a nossa vitivinicultura de influência oceânica, a Sauvignon Blanc, que no Sul do País tem uma expressão varietal muito boa e que tem sido valorada por especialistas do mundo inteiro. Acho que poderia ser uma boa pedida para o mercado exterior que procure um vinho branco elegante, fresco, aromático, e alem disso, gastronômico.

 

Vinoarti: Como embaixador dos vinhos uruguaios, se importa em indicar e/ou recomendar vinícolas e rótulos que considera emblemáticos?

DA: Vou recomendar mais pensando em vinhos que é possível encontrar no Brasil, que desde o gosto pessoal mesmo. Claro que a lista de rótulos é incompleta e muitos mais vinhos merecem a pena ser degustados, mas, vamos lá….

- Bouza Monte Vide Eu (blend) de Bodega Bouza

- Pisano RPF Petit Verdot de Bodega Pisano

- Pizzorno Reserva Tannat de Bodega Pizzorno

- Km. 0 Río de La Plata Gran Reserva Tannat de Bodega Irurtia

- Tannat Viognier Reserva de Bodega Alto de La Ballena

- Amat de Bodegas Carrau

- Osiris Merlot de Antigua Bodega Stagnari

- Pinot Noir de Bodega Finca Narbona

- Chardonnay “de Virginia” de Vinos Finos H. Stagnari

- 100 AÑOS Reserva Familiar Sauvignon Blanc de Bodega Giménez Méndez

 

Vinoarti: Bem, fique a vontade para deixar uma mensagem aos leitores do VinoArti

DA: Marcelo, gostaria agradecer pelo espaço e a honra de ter sido entrevistado para seu site, e deixar uma mensagem para os leitores, que mais que uma mensagem é um convite: Pessoal, provem e degustem vinhos de Uruguai, e melhor ainda, sintam-se a vontade para visitar o meu País, conhecer nossa gastronomia, e claro, nossas vinícolas e vinhos. Podem ter certeza que vai ser um passeio para os sentidos, do qual ninguém se arrependerá!

Vinoarti: Daniel, obrigado pela entrevista. É um grande prazer tê-lo como entrevistado do VinoArti, como parte das comemorações de um ano do Site.

 

Entrevista realizada em 22 de fevereiro de 2013, via internet

 

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