Entrevistas - quarta-feira 30 julho 2014

Adolfo Lona [Arg]: Pioneirismo e Talento fazendo História no Brasil

Nessa primeira entrevista de 2014, tivemos o prazer de conversar com o produtor Adolfo Lona, a quem chamo carinhosamente de “Mestre Adolphus”. Muitos não sabem, mas além de sua ligação com o mundo dos espumantes, há toda uma história de pioneirismo em relação ao Vinho Brasileiro. Falamos sobre seus sensacionais espumantes, sobre passado e futuro, e até sobre a situação atual do mercado brasileiro. Enfim, uma deliciosa entrevista que merece ser lida com uma taça de espumante na mãe…de preferência, um ORUS, claro!!!!

 

Vinoarti: Mestre Adolphus é hoje, conhecido por seus deliciosos espumantes, mas essa história é muito anterior, certo?

AL: Começou em janeiro de 1973 quando cheguei ao Rio Grande do Sul, na cidade de Garibaldi, contratado pela Martini e Rossi para executar o projeto do espumante De Gréville. A empresa tinha adquirido um terreno na cidade e pretendia começar a produzir em cantina própria um espumante pelo método charmat com uvas da Serra Gaúcha. Construímos a cantina para elaborar vinhos base espumantes com a técnica aplicada em Champagne. Tive a sorte de compartir este projeto com um enólogo francês desta região através do qual conheci os princípios do sistema que dá origem aos fantásticos espumantes de Champagne.  Foram anos fantásticos, de muita aprendizagem, básicos para minha formação enológica baseada no respeito à natureza, à condução sem maiores intervenções do processo da fermentação alcoólica que transforma o suco da uva em vinho. Aprendi a arte da “modelação” de um produto, com paciência, respeitando os tempos.

 

Vinoarti: O que motivou sua vinda para o Brasil?

AL: Um conjunto de fatores: ter a segurança de poder trabalhar com uma empresa séria e respeitada como Martini e Rossi, o projeto desafiador e inovador, poder morar no Brasil que é um país acolhedor e parecido com o nosso e finalmente a condição financeira que era muito atrativa. Se tivesse que escolher um motivo fundamental diria que foi o fato de me incorporar a uma empresa como a Martini e Rossi. Isto me dava tranquilidade e confiança para iniciar esta mudança tão marcante na minha vida e de minha família.

 

Vinoarti: Quais foram os seus primeiros projetos na Vitivinicultura no Brasil?

AL: Já na chegada me debrucei sobre o projeto da cantina, sistema de elaboração de vinhos e espumantes, equipamentos necessários, como e de quem adquiri-los, instalações apropriadas, estilo arquitetônico, etc. Logo depois iniciei aquilo que foi também uma verdadeira escola: conhecer a viticultura da Serra Gaúcha, ao final teria de adquirir uvas em curto espaço de tempo. Foi uma surpresa atrás da outra: tive o primeiro contato com as uvas da espécie americana, totalmente desconhecidas na Argentina, entendi sua importância e sua influencia negativa sobre as europeias na produtividade, tratos culturais, misturas acidentais e propositais, propagação, etc.

Ficou claro que para dispor de uvas viníferas de qualidade era necessário atuar fortemente no campo, na viticultura. Montamos um projeto baseado na seleção lenta e gradual de produtores de uva dispostos e seguir nossas normas. A proposta era oferecer uma boa remuneração por seu trabalho. É importante destacar a estrutura de produção baseada no minifúndio, pequena propriedade, familiar, com as limitações e peculiaridades que isso representa. Era necessário mudar a forma de produzir priorizando a qualidade em detrimento da produtividade. Não foi fácil mas ao longo dos anos se mostrou gratificante porque as mudanças foram marcantes.

 

Vinoarti: Qual o legado desse trabalho pioneiro?

AL: Uma nova forma de produzir uvas e vinhos. Fomos os que introduzimos as caixas plásticas de 18 quilos para colher e transportar as uvas dos vinhedos às cantinas e começamos a separar a enorme mistura de uvas viníferas e americanas. Existiam duas versões da uva branca Riesling itálica, a verdadeira e a falsa. A falsa nada mais era do que a híbrida Seyve Willard que algumas cantinas, conforme a oferta, recebiam como verdadeira. Proibimos o uso da “cama de aviário” como adubo das videiras porque devido a ser fortemente nitrogenado provocava uma explosão na produtividade. Os vinhedos se transformavam em verdadeiras trepadeiras prejudicando a maturação e sanidade das uvas. Na parte tecnológica introduzimos as prensas pneumáticas para extração do suco das uvas brancas, o controle eletrônico da temperatura de fermentação, importamos as primeiras barricas de carvalho francês das quais chegamos a ter quase mil e tivemos a coragem de produzir o primeiro vinho tinto de guarda brasileiro, o Baron de Lantier elaborado seguindo a técnica bordelesa. Este vinho aliás, foi o primeiro premiado em concursos internacionais. Infelizmente tudo isto se perdeu quando a Martini foi adquirida pela Bacardi e houve uma brutal mudança de cultura na Companhia. Nos primeiros anos quando a presidência foi ocupada por um brasileiro acreditavam no futuro do vinho, depois o foco foi destilados e entendi que não tinha mais o que fazer.  

 

Vinoarti: Quando se deu a decisão de produzir seus espumantes?

AL: Em 2004, quando sai da Bacardi pelas razões expostas acima, decidi iniciar minha carreira solo. Lancei um vinho tinto jovem Merlot e dois espumantes, meu Brut Rosé e o Brut tradicional. Alguns anos depois abandonei a produção de vinhos e me concentrei na elaboração de espumantes. Segui minha intuição em relação ao potencial que a região oferece para produzir espumantes de qualidade e ao enorme mercado que cresce a cada ano. Hoje tenho certeza que minha decisão foi acertada ao focar em espumantes mas não descarto totalmente algum dia produzir um vinho tinto.

 

Vinoarti: Quais foram as maiores dificuldades para concretizar essa bela iniciativa?

AL: Acostumado a dirigir uma grande companhia onde todos os recursos técnicos e financeiros estavam à nosso alcance, tive de me adaptar as limitações de ser um pequeno produtor, sem acesso a crédito nem apoio de nenhuma espécie. Sempre as dificuldades foram e são de ordem financeira porque meus espumantes são elaborados a partir de vinhos de dois anos e são de ciclo longo, sejam os charmat como os tradicionais. Lógico que transformar em realidade um produto idealizado não é uma tarefa fácil nem rápida mas de modo geral estou muito satisfeito e orgulhoso de nossos produtos.

 

Vinoarti: Como bem sabe o mestre, sou fã incondicional do “Orus”, mas adoro os seus espumantes de uma forma geral. O que você considera o diferencial de seus espumantes.

AL: Ao optarmos por sermos pequenos, artesanais, de produtos com valor agregado e qualidade indiscutível, optamos pelo caminho do diferencial. Isto significa que temos de oferecer aos apreciadores de espumantes, produtos originais, com estilo próprio, diferentes. Essa parece ser nossa característica. Para citar alguns exemplos, nosso Brut rosé, campeão de vendas, é diferente dos outros, desde sua cor casca de cebola que mostra sua evolução até seus delicados aromas e sabor. O Nature é inconfundível devido a pequena quantidade de Merlot em branco que retira acidez sem afetar o vigor e nosso Orus, que é um dos poucos Nature Rosé produzido no Brasil é um espumante diferenciado, elegante, marcante, inesquecível. Os ciclos longos, de 6-8 meses para os charmat e 18-20 para os tradicionais contribuem para a delicadeza e elegância. Tenho muito orgulho da qualidade de meus espumantes e que sejam identificados com meu nome.

 

 

Vinoarti: Produzir vinhos tranquilos saiu totalmente nos planos da Adolfo Lona?

AL: Voltarei a produzir o dia que sentir confiança com a uva produzida e sua constância. Infelizmente o clima chuvoso em alguns anos afeta demasiadamente a maturação e estado sanitário das uvas tintas. Se não tiver orgulho do vinho produzido não o lançarei.

 

Vinoarti: Como você analisa o mercado brasileiro atual e quais as maiores dificuldades para os pequenos produtores.

AL: O Brasil é um dos poucos países no mundo com perspectivas reais de crescimento constante. O consumo per capita é inferior a 2 litros sendo que 60% disso são vinhos comuns. O aumento lento é um problema cultural já que o vinho não forma parte dos hábitos de consumo da maioria dos brasileiros. Infelizmente 75% do mercado de vinhos é ocupado pelos importados que ganharam confiança do consumidor. Falam em preconceito mas não concordo porque se fosse isso os espumantes estariam na mesma situação e neste seguimento é o inverso, 75% são nacionais. O mercado é extremamente competitivo e distribuído em espaço continental e isto cria dificuldades para a distribuição dos pequenos produtores que não conseguem chegar de forma competitiva devido aos volumes limitados. Uma das saídas para ajudar os pequenos diminuindo a carga tributária seria abrir a possibilidade de serem incorporados ao regime do SIMPLES nacional que não inclui bebidas alcoólicas. Boa parte dos impostos que deixariam de serem pagos ajudariam para enfrentar os custos de distribuição e facilitariam a chegada de seus produtos nas grandes capitais.   

 

Vinoarti: Uruguai, nesta semana – a exemplo da Argentina – classificou o vinho como alimento, o que acarretará em desoneração tributária. Tenho defendido há anos que esse é um dos principais caminhos para alavancar a cadeia produtiva vitivinícola. O que mais deveria ser feito nesse sentido?

AL: O vinho jamais será considerado um alimento no Brasil porque não forma parte da cultura gastronômica como em Uruguai e Argentina. Ainda é visto como “bebida alcoólica” com todos os problemas que isto traz. Acredito que o setor, que infelizmente é muito desunido, deveria lutar pela diminuição da vergonhosa carga tributária que recai sobre nossos produtos. Para ter uma ideia, uma garrafa de espumante numa loja ou supermercado, carrega quase 58% de impostos. Isto tira a competitividade de qualquer atividade. Lamentavelmente esses impostos não retornam através de benefícios. Alem da carga tributária, as vinícolas financiam os impostos embutidos na venda porque os prazos sempre são dilatados e o pagamento de impostos é em parte à vista ou em prazos inferiores a trinta dias. Creio que isto é o que mais afeta a cadeia como um todo e torna caro o vinho e os espumantes para os consumidores. O triste é que não vejo nenhuma possibilidade que isto mude devido à enorme fome que governos municipais, estaduais e federal tem para arrecadar e sustentar estruturas corruptas e ineficientes.

 

Vinoarti: Exportação: sonho ou realidade?

AL: Nem sonho nem realidade porque não está em meus planos. Meu foco está no mercado interno que cresce todos os anos e tem um longo caminho pela frente. Produzimos em quantidade limitada e não temos condições de iniciar um trabalho de longo prazo no mercado externo. Como exportar Orus se produzimos 600 garrafas ao ano e são vendidas quase na totalidade antes de fechar o ciclo, ou Nature que produzimos menos de 5.000 garrafas? A exportação é um desafio para os grandes que enfrentam dificuldades de colocar toda a sua produção.

 

Vinoarti: Eu o conheci pessoalmente em uma feira de vinhos e, desde então, posso constatar que o nome Adolfo Lona está sempre presente em eventos de vinhos. Esse ainda é o melhor caminho para divulgar os vinhos ao público interessado?

AL: A forma mais efetiva de chegar ao consumidor com poucos recursos é a participação em feiras. É um trabalho lento de divulgação boca a boca mas muito importante porque possibilita o contato com o apreciador de vinhos. Ele tem a oportunidade de conhecer e falar com o produtor além de degustar seus vinhos e espumantes. Nós não participamos das grandes feiras como Expovinis nem em eventos no exterior.  Eu faço questão de estar pessoalmente nas feiras das quais participamos.

 

Vinoarti: Me causa certo estranhamento, por exemplo, o fato de produtores e importadoras concentrarem propaganda em revistas especializadas – cujo público, em geral, já conhece os vinhos – e não em veículos de mídia de grande circulação. Qual seria o caminho para atingir o grande público no Brasil?

AL: É um simples problema de recursos. A divulgação através de veículos massivos é muito cara e para fazer um trabalho de impacto deveria ser uma campanha de longa duração ou colocada no ar repetidas vezes durante o ano. Não há produtor nacional, nem os maiores, que tenham recursos para isso. Acredito que a maior vinícola do Brasil deve faturar em torno de duzentos milhões de reais o que é relativamente pouco se comparado com outras grandes empresas. É importante considerar que o vinho não é um produto popular devido à distancia que ainda existe dos hábitos de consumo do brasileiro. Divulgar através de revistas e jornais especializados diminui o valor do investimento e direciona a mensagem ao público alvo. Estamos longe ainda de campanhas massivas.

 

Vinoarti: Finalizando, se importa em deixar uma mensagem aos leitores do VinoArti?

AL: A mensagem é que quando despertamos para o interesse no maravilhoso mundo da uva e do vinho, descobrimos algo diferente a cada dia. Por isso é importante ser sempre curioso, nunca achar que sabe tudo, apreciar e desfrutar da diversidade entre os vinhos devido ao clima e solo onde foram cultivadas as uvas que deram sua origem e devido à mão do homem que o produziu. Entender que o vinho é a expressão da uva que a cada ciclo anual se renova, é igual mas não a mesma e por isso o vinho muda a cada ano mantendo seu estilo. Não ser preconceituoso achando que vinho jovem é melhor o pior que o  envelhecido, um chileno melhor que argentino ou brasileiro: são simplesmente diferentes. Desta forma o vinho e os espumantes vão nos oferecer momentos especiais, únicos. Saúde a todos!!

 

Vinoarti: Mestre Adolphus, é realmente uma honra tê-lo conosco no VinoArti. Aprendi a respeitá-lo como produtor, mas, sobretudo como pessoa. Saiba que o convite para essa entrevista é fruto de pura admiração da nossa parte e espero que possamos estar juntos em muitas ocasiões tanto no presente, quanto no futuro. Te desejamos muita Luz e muito sucesso!

 

 

Entrevista realizada em 23 de julho de 2014, via internet.

 

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