Editorial - quarta-feira 19 junho 2013

EMITA SUA POSIÇÃO, SEJA CIDADÃO.

Prezados Enoamigos, esse site, como sabem é voltado para vinhos, artes e afins. No entanto, gostaria de deixar clara a minha posição em relação a essas manifestações que ocorrem por todo o país, uma vez que vários de nós, enófilos estamos em franca discussão nas redes sociais, e, em especial no Facebook. Assim, transcrevo abaixo artigo publicado hoje na página dos meus alunos de Direito, na Universidade Estácio de Sá

Foto colhida no Facebook


Muitos alunos estão pedindo minha opinião sobre os protestos.

Quem me conhece há mais tempo, sabe que não sou dado a maniqueísmos. Em cima do muro, nem pensar. Pelo contrário, tenho por hábito analisar várias facetas de um caso, para emitir conclusões.

Muito fácil dizer que a polícia é violenta e o mesmo vale para denunciar o movimento como “baderneiro”. Isso é o mesmo que simplificar várias verdades em algo rasteiro, porém mais fácil de deglutir.

Os movimentos – vários e com motivações diferentes – são legítimos, seja para reivindicar apenas a redução do preço da passagem, as condições do transporte (o que seria mais correto), ou mesmo para reclamar da corrupção, das PEC’s que tentam calar o MP e o STF e o que mais estiver na pauta.

 

Inicialmente, fica claro que há uma dispersão de motivos e objetivos. É – nesse momento – um protesto sem líderes. No entanto, aos poucos, muitos motivos vão aparecendo, ou seja, a sociedade está dando claras mostras de que está de “saco cheio”. No seu devido tempo, líderes aparecerão e capitalizarão a fama.

À época dos “caras pintadas”, o povo saiu às ruas e derrubou um presidente tido como corrupto. E o que aconteceu depois? O gigante adormecido voltou a adormecer. Talvez se tivesse ficado acordado, não tivéssemos “mensalão” e todas as mazelas políticas que passamos ano após ano desde então. Quem é Lindbergh Farias hoje?

 

O lado bom, portanto, é a manifestação espontânea de quem não aguenta mais pagar impostos e não ter retorno. De quem não concorda com gastos com a Copa, com a tentativa de calar o MP e submeter o STF, com o grandioso “Bolsa Esmola” e assim por diante.

Particularmente, sou contra a realização de Copa do Mundo e Olimpíadas. Fosse esse dinheiro investido em escola em tempo integral, bibliotecas públicas, em melhores salários para professores, em melhorias nas unidades do sistema SUS, o País já teria um ganho considerável. Mas, desde Roma sabe-se que o povo costuma se contentar com Pão e Circo. Assim, a soma do “Bolsa-Esmola” com os maiores eventos do planeta formam uma combinação tão perfeita que nem Diocleciano poderia sonhar.

Em Brasília, manifestantes que subiram a rampa do Congresso bradavam “Dirceu, pode esperar…a sua hora vai chegar”…Interessante. A “presidente” Dilma é vaiada em estádio de futebol e diz que os protestos nada têm contra seu governo. Acho que está lavando as mãos cedo demais.

As manifestações até então, não têm nada contra nenhum governo específico, com efeito. Como disse acima, o movimento ainda nem sabe bem o que pretende. A revolta é pelo contexto, pelo “conjunto da obra”, se assim podemos dizer.

De nada adianta partidos como o Psol e PSTU levantarem suas bandeiras, pois o movimento – em todos os lugares – está refratário à participação partidária, pois intimamente os manifestantes sabem que basta uma brecha para que usurpem a paternidade das reivindicações.

A polícia agiu com truculência em São Paulo semana passada. Isso é fato! Mas mesmo esse fato deve ser analisado com cuidado.

Deveria a polícia não agir, quando manifestantes pacíficos começam a depredar as bancas de jornal? No calor do conflito, como saber quem está participando, quem não está, quem é repórter, quem não é?

No entanto, uso de bombas de gás lacrimogêneo vencidas, uso de balas de borracha, uso indiscriminado de spray de pimenta é naturalmente excesso. E como tal, devem ser coibidos, investigados e, uma vez constatados os autores, punidos.

Aí vem mais uma sucessão de erros.

No Rio, após uma das cenas mais lindas dos últimos anos, com cem mil pessoas tomando a Av. Rio Branco, um grupo de “vagabundos”, se acha no direito de pichar prédios históricos, depredar agências bancárias, virar e queimar carros, lançar “coquetéis Molotov” e pedras, contra o prédio da Alerj, dentre outras barbaridades.

Não deveria a polícia intervir? Mas não agiram. É possível que tenha recebido ordens para não intervir. Com isso, tivemos policiais acuados dentro da Assembleia e ameaçados de linchamento em uma agência bancária. Isso é protesto pacífico?

Em São Paulo, também no no dia 17 de junho, enquanto a maioria protestava pacificamente na Av. Paulista, um grupo tentou invadir a sede do Governo. Que sentido teria isso? Deveria a polícia simplesmente deixar a multidão arrebentar os portões e depredar mais um prédio público?

Ontem, um dia após, vândalos após tentarem invadir a prefeitura, incendiaram um carro de trabalho da Rede Record, depredaram bancos e saquearam – isso mesmo, vi as imagens de um imbecil saindo com duas latas de Pringle’s nas mãos – de lojas como Americanas e Marisa, dentre outras.

É óbvio que não.

Até onde as manifestações populares podem ocupar o espaço público? Mais do que uma questão legal é uma questão de bom senso. Parar o trânsito para chamar atenção às reivindicações é algo legítimo e é intrínseco à própria existência das passeatas. Mas, comícios nas redondezas de um hospital, ou mesmo fechar artérias vitais de forma a impedir centenas de milhares de pessoas a voltar pra casa, é falta de responsabilidade.

São várias facetas dentro de um grande contexto. Sou favorável a todo tipo de manifestações democráticas, mas abomino a violência seja de que lado for.

A imagem de palhaços mascarados dançando em volta de um carro em chamas é patética e deplorável, mas, decerto não pode contaminar a imagem de milhares de pessoas andando pacificamente na Avenida Paulista, na Candelária ou em qualquer outro lugar. Isso seria desprezar o que de mais importante tem esses movimentos, qual seja “o Direito de a população externar a sua indignação”.

Ouvi pessoalmente Darcy Ribeiro proferir: “Toda vez que o ser humano deixa de se indignar, alguém lhe coloca uma canga”. Que fique a reflexão…

 

 

Marcelo Carneiro, 19 jun 2013

 

6 comentário(s) sobre “EMITA SUA POSIÇÃO, SEJA CIDADÃO.

  1. Caro,
    Mas sendo sério agora, considero o movimento legítimo e o apoio plenamente. Por outro lado, sou completamente contra o grupinho e baderneiros e acho que nesse caso, a polícia deveria agir com rigor. Senão, vira uma anarquia.
    Abraços,
    Leonel

    • Exatamente!
      Acho extremamente importante o povo sair desse estado de letargia. Muitos desses problemas não são de agora…
      Agora, a cena que vi ontem de um imbecil com duas latas de batatas Pringles’s dentro das Lojas Americanas é coisa de bandido e não de manifestante.
      No Rio, na segunda, no prédio da Cândido Mendes, quase em frente à ALERJ, um professor conhecido meu dos tempos de faculdade e seus alunos não podiam descer, pois “manifestantes mascarados” estavam assaltando e depredando os carros…
      Enfim, o fato de estarmos discutindo esse assunto até em site de vinho, mostra que podemos mudar a postura, seja do povo, seja dos governantes.

      Um forte abraço

  2. Prezado Marcelo,

    Legal o artigo e os comentários acima. Também sou a favor do movimento, desde que seja pacífico e sem baderna. Realmente as cenas de depredação que estamos assistindo na TV são deprimentes. E são produzidas por uma minoria. Uma forma de amenizar o quadro seria a polícia avisar os manifestantes para não usarem máscaras, e prenderam quem delas fizer uso. Essas máscaras são utilizadas por marginais para esconderem seus crimes. É uma medida bastante simples: Usou máscara, tapou a cara, é um bandido em potencial.

    Abraços,

    Flavio

    • Tenho minhas dúvidas se esses “desgarrados” não são parte de algo mais, digamos “obscuro”.

      Essas manifestações têm um valor tremendo, na medida em que a população está se posicionando sobre assuntos de interesse geral. Essa postura de que o problema é sempre dos outros tem mesmo que acabar.

      Mas como disse, existem muitas facetas a serem analisadas, pois fica claro que não há direcionamento, nem liderança; logo não muito a se reivindicar. Ou seja, é preciso transformar o “balaio de gatos” em uma “cesta básica” bem definida.

      Enoabraços e obrigado pela visita.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


9 + = dezoito

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>