Contos & Crônicas - terça-feira 13 março 2012

O Velho Bolchevique

Dois velhos amigos, antigos militantes comunistas se encontram no apartamento de um deles, em Brasília para relembrar os velhos tempos e comemorar a vitória de Lula à presidência do Brasil.

- Meu Velho Bolchevique! Vamos tomar aí do teu Romanée-Conti. Mas eu quero do 1997, o mesmo que o Lula bebeu. Afinal, Precisamos sentar com calma e conversar sobre os rumos da esquerda no nosso País.

- Eu vou te dar é um vinho de garrafão, porque você não sabe beber.

- Deixe de ser sovina, homem, tá com a adega cheia e vai me negar uma garrafinha?

O velho bolchevique abana a cabeça, em tom de reprovação.

- Sabe, meu velho. As coisas estão realmente mudando. A vez da esquerda chegou. Me passe aí esses canapés. Aliás, canapé é um nome muito burguês. Me passe aí esse “negocinho”.

Como eu ia dizendo, quem disse que o comunismo está morto, não perde pra ver. Lula e aquele lelé da Venezuela estão até disputando quem vai ser o novo Fidel. Pra mim, veja, pra mim, o Lula tem mais perfil, mais barba, né!

Me passe aí mais pouco do vinho. Hum! Esse “negocinho” é bom mesmo. Aonde mandou fazer?

- Foi a minha empregada – responde o velho bolchevique (que nem tão velho é) -. Aliás, empregada não que eu não sou burguês. Ela é voluntária, acredita na causa. Se pago só um salário, é porque tenho medo que digam que eu lido com trabalho escravo. Sabe como é, adversário político experiente, se eu bobeio, eles me derrubam.

- Concordo com o amigo. Mas passe aí o vinho, homem! Mas, veja bem, agora nós temos até ministros que eram chamados de terroristas e subversivos.

O muro caiu lá, mas aqui estamos a erigir outro. Sabe, meu velho, fico pensando nos companheiros do Araguaia…como foram “totocas”. Quem não morreu, sifudeu! Não precisa balançar a cabeça, eu sei que aquele “nosso amigo” escapou, mas no geral, a turma se funicou. Mas é isso, eles ficaram com aquela sandice de fazer revolução no meio do mato e nós estamos aqui tomando um bom vinho, tomando o poder para as massas.

Aliás, peça a porra da empregada voluntária pra trazer mais acepipes, que seu eu bebo sem comer, fico de fogo, homem.

O velho bolchevique toca a sineta e a empregada – linda de novela – vem rapidamente receber as ordens. O avental curtíssimo fez a visita suar.

- Treinada ela, hein? E bonita. Tá comendo?

- Isso não é da sua conta.

-  Tá comendo, sabia! Agora me passe aí o vinho.

Como o velho bolchevique hesita, vem o pensamento: Quem diria, um velho comunista não querendo compartilhar um bem de consumo com um velho companheiro.

- Preste atenção, homem. Já temos um operário na presidência da República. Já tivemos um nordestino do baixo clero na presidência da Câmara. Um jurista de obra nenhuma na presidência do Supremo. No senado…deixe pra lá. Me passe a porra do vinho, porra! Se fosse para o Lula, você não estaria “regulando” um gole.

Chegou a nossa hora, companheiro, pfuf. – No que se empolgou, babou um pedaço de canapé – Vejo no horizonte a glória do proletariado. As portas estão abertas. Imagine a surpresa mundial se der um comunista presidente do Brasil?

- Mas aí – com ar de susto, se levanta o velho bolchevique – vamos acabar ministros. E a responsabilidade? E se tiver que trabalhar 30 horas por dia?

- Meu velho bolchevique…te aquiete. E desde quando ministro trabalha de verdade?

O velho bolchevique pensou um pouco, na verdade, muito pouco e, finalmente sorriu.

- Tome aí a garrafa, que eu to é gostando dessa prosa. E viva Bakunin!

- Ué, mas Bakunin não era anarquista?

- E, por acaso, você acha mesmo que nós somos comunistas?

Resende, 29 de julho de 2010

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