Contos & Crônicas - segunda-feira 25 agosto 2014

O namorado da minha mãe…


 

 

Cara, a mãe apresentar pra gente o seu namorado é sempre complicado! Mas, não há muito que fazer, é torcer para que o candango seja gente boa.

Pois bem, dia desses, minha mãe nos chamou pra jantar. Eu, minha mulher e minha irmã. Já imaginei que fosse pra apresentar seu namorado, e, embora isso não seja necessariamente novidade, pois ela e meu pai se separaram quando eu tinha 13 anos, confesso que até hoje isso não é uma situação, digamos, confortável.

Liguei pra minha irmã dizendo que, se quisesse eu a pegava em casa. É um hábito nosso ir especulando no caminho sobre o que vem pela frente.

Honra seja feita, considerando o tempo que meus pais se separaram, não foram muitos os namorados da minha mãe…meu pai ganha longe nesse quesito, mas, já teve uns dois ou três “malas” que puta que pariu.

Minha mulher sempre debocha de mim, diz que eu estou sempre “empatando a foda da mamãe”…olha que praga! Tudo bem, os primeiros namorados sofreram bastante, mas, não chego a ser aquele personagem de filme americano.

É que teve uma fase que ela resolveu namorar caras mais novos – nunca perdoei a tia Heloísa por isso –, e aí foi foda. Brother, ver a sua mãe namorando um anencéfalo da sua idade, não rola de jeito nenhum. Graças a Deus, passou.

Bem, fazer o quê? O negócio é encarar o bicho de frente. Como todos nós gostamos de vinho, resolvi levar alguma coisa. Não dava pra saber se o cara gostava de vinho ou não, mas, dane-se, também não estava preocupado em agradá-lo. Aliás, se não gostasse seria ainda melhor.

Quando chegamos, a minha irmã já esticou o pescoço pra ver a figura.

─ Filhos, que bom! Gente, esse é o Beto, meu namorado.

Esperava um cara feio, mas o carequinha era bem apessoado (não vou admitir que era um cara bonito). Pior, o cara pareceu ser bem simpático e não ficou intimidado com filhos e nora encarando com aquela expressão de “qual é?”. Quando me dei conta, minha mulher já estava falando da nossa vida pra ele.

Sei que a minha mãe tem bons vinhos em casa, mas levei uns Borgonhas porque adoro Pinot Noir. Nem perguntei se o cara gostava e servi a todos, aliás, perguntei depois que dei a ele a taça.

─ Vou tomar só um pouquinho, estou tomando remédio.

Ah! A velha desculpa…pensei.

─ Bem, eu nunca desperdiço um Borgonha, nem com antibiótico.

─ A sua mãe me disse que é médico.

“Filho da puta”, pensei. Me pegou com essa do antibiótico; também, isso lá é coisa pra médico falar?

Fiquei olhando pra ver como ele pegava na taça e tudo mais. Mas, não é que o cara foi correto, pegou pela haste e até levou ao nariz para sentir os aromas. Bem, minha mãe já deve ter ensinado alguma coisa pra ele, afinal, estão saindo juntos há algum tempo.

Resolvi testar o cara e banquei o enochato de propósito, fiquei falando sobre Borgonha, sobre Pinot Noir, sobre harmonização e tudo mais que possa chatear alguém que não é do ramo. Acho até que falei merda, mas, como era pra incomodar, vale tudo.

Mas, pra minha surpresa, ele não pareceu estressar; Camilla, minha irmã é que quase me mandou calar a boca. Ela odeia enochatos.

Não dá pra dizer que a noite foi desagradável, pois o tal do Beto realmente encarou tudo com louvor. Camilla só faltou perguntar quais eram as intenções dele com a minha mãe e eu “enchendo o saco”, só falando de vinho.

Apenas Nathalia tentou amenizar as coisas para ele. Embora chegasse a cursar dois períodos de arquitetura, acabou se tornando designer. Como ele era arquiteto, tinham afinidades e o cara realmente era bom de papo. Minha mãe, coitada, naquela saia justa habitual só nos olhava com aquela cara de “me aguarde”, que só mãe brava sabe fazer.

Olhava pra taça dele, quase vazia e pensava: “Que tipo de cara que gosta de vinho desperdiça Borgonha dessa forma? Deve estar acostumado com os ‘Reservados’ da vida”.

No fim, a noite não foi tão desagradável como eu pensava que seria – ou queria que fosse. Na hora de todo mundo despedir, vendo que o cara não se mexia pra ir embora, cheguei no ouvido da minha mãe e disse:

─ Pô, mãe, o cara vai dormir aqui????

─ Não, a sua avó é que vai…─ respondeu seca e com a cara fechada.

Isso era claro sinal de que estava brava comigo. Resolvi não falar mais nada e fomos saindo.

No caminho aquele papo habitual com Camilla sobre a nova aquisição de Mommy.

─ E aí, irmã. O que achou do candango?

Camilla pensou um pouco antes de responder.

─ Posso estar errada, mas parece o cara mais bacana com quem a mamãe já ficou até hoje. Nem essa palhaçada sua de enochato, fez o Beto perder a esportiva.

─ É está até chamando o cara pelo nome…deve ter gostado dele mesmo.

 

************

 

Dias depois, mamãe me ligou perguntando se não queria ir a um evento de vinhos. Lançamento de uma nova linha de vinhos espanhóis no Brasil e a importadora era do Henrique, meu tio por parte de pai.

Adoro eventos de vinho. No começo era aquela coisa de “boca livre”, ou seja, “encher o pote” de graça. Com o tempo, aprendi a aproveitar esses eventos pra conhecer melhor estilos, países e por aí vai.

Sempre que posso, não perco e, honra seja feita, mamãe é uma grande companheira.

A importadora ia trazer o produtor e o arquiteto, um brasileiro que fez o novo projeto novo da vinícola. Os vinhos seriam os primeiros produzidos na nova bodega. Como sou fã dos vinhos do Priorato,[1] considerando seus preços no Brasil, uma degustação free é mais do que bem vinda.

Quando cheguei, mamãe já estava lá, conversando com o tio Henrique.

─ Ué, Mãe, cadê o Beto? Tomando remédio de novo? ─ debochei.

─ Não, meu Amor, a gente vai se encontrar aqui, bobinho.

Bem, ela não caiu na pilha e ainda disse que precisava ajudar o tio Henrique. Estranhei, pois ela nunca participou de nada da importadora, salvo – como eu – aproveitar as degustações. Eu e Nathália encontramos um monte de amigos e o pessoal que sempre frequenta eventos aqui no Rio e assim ficamos esperando o início da apresentação.

Durante a espera, a importadora serviu um Cava[2] de outra empresa, já que a vinícola em questão não produzia espumantes. A promoter começou a chamar o pessoal pra assistir um vídeo com a apresentação das novas instalações. Todo mundo comentando que o arquiteto brasileiro projetou a bodega mais moderna da Espanha.

Entrou o tio Henrique pra fazer a apresentação e a minha mãe apareceu com o Beto, vindos lá de dentro. Confesso que não vi o cara chegar, mas como a mamãe estava ajudando no evento, me pareceu natural.

Bem, sem meias palavras…eu me fodi!

A arquiteto brasileiro Alberto Sabella de Arboleda, filho de espanhóis, que construiu a bodega mais moderna da Espanha e tudo mais era…o Beto.

A minha mãe, tinhosa, ficou se divertindo vendo a minha cara. Faltou pouco para ela se escancarar de rir. Ainda bem que a minha irmã não foi. Nathália pegou no meu braço, no que eu mandei logo: — Se falar alguma coisa, eu peço o divórcio!

Ela precisou ir ao banheiro pra não gargalhar do meu lado.

E eu me afundando cada vez mais na cadeira.

… pelo menos os vinhos foram fantásticos.

 

 

 

 

Falando sério, acho nunca fiquei com uma “cara de bunda” tão grande quanto naquele dia.

O Beto foi muito legal – embora não possa dizer o mesmo da minha mãe – e não tocou no assunto.

Da minha mãe, não posso dizer o mesmo. Me ligou no dia seguinte e debochou tudo que podia. Tripudiou mesmo! Se não fosse mãe, eu xingava. Tudo bem, eu mereci, nas na hora a gente fica puto, né?

Desliguei o telefone na cara dela e não atendi o celular.

Acho que se vingou de tudo o que fiz com todos os seus namorados. Dava pra sentir a sua alegria na minha derrocada.

Vou contar uma coisa pra vocês. Arrogância é realmente uma merda.

 

 

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Bem, tempos depois, a mamãe casou com o Beto. Foi uma cerimônia íntima e para pessoas realmente próximas do casal. Minha mãe fez questão de casar em Visconde de Mauá, onde temos uma chácara deliciosa. Os convidados, na maioria, ficaram hospedados em ótimas pousadas.

Nem precisa dizer que a festa de casamento teve ótimos vinhos. Embora tivesse acesso aos vinhos espanhóis da bodega a qual era ligado, fez questão de que os vinhos fossem brasileiros.

Vi Beto conversando com meu tio e perguntei se ele não queria uma taça.

— Não posso, estou tomando remédio!!! Respondeu sério.

Depois de uma pequena pausa da minha parte, ambos gargalhamos horrores.

Eu merecia esse troco, certamente, mas, até nisso, ele foi um gentleman.

 

 

 *******************

Vou contar mais uma coisa pra vocês, algo que a mamãe jamais pode saber. Aliás, não admito contar nem pra minha mulher e, principalmente pra minha irmã… mas, claro, todo mundo sabe.

Eu adoro o Beto!!!!

 



[1] Região produtora da Espanha. Atualmente, os vinhos do Priorato estão entre os mais valorizados do País e, consequentemente, com os preços mais elevados.

[2] Espumante típico da região de Penedés.

 

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