Contos & Crônicas - quinta-feira 24 maio 2012

O MESTRE DOS VINHOS


 

— E agora, o prêmio especial da noite. “O Enólogo do Ano”, vai para o nosso querido Leonardo Santos.

As palmas eclodiram por todo o Teatro Municipal. Enólogos, produtores, importadores, todos de pé para aplaudir mais do que uma premiação, mas uma vitória.

Leonardo não tinha lágrimas para chorar nesse momento, gastara-as demais nos últimos dois anos.

Estava a um passo de conseguir o título de “Master of Wine”, o reconhecimento máximo para um profissional do mundo do vinho, quando se descobriu diabético. Seu mundo ruíra a dias da realização de seu maior sonho.

Ainda lembrava das palavras do seu endocrinologista, indicado por um amigo.

— Não queria ser duro com você, mas, por ora você não pode mais beber. Muito menos no nível que você está acostumado por questões de trabalho. Vou fazer o possível, mas é provável que tenha que amputar esses dedos.

Frêmitos de pavor assomavam seu corpo só de pensar nesse momento. Negligenciara os sintomas durante muito tempo. Não tinha tempo, pois viajava demais. Não tinha interesse, pois médico sempre proíbe de fazer algo que gostamos. Agora, parecia estar num caminho sem volta. Pior, como não continuar trilhando esse caminho após ter chegado tão longe.

Lembrou de uma conversa que teve dias depois da trágica notícia.

— O que você pensou naquela hora? Perguntou Edu, seu velho amigo e companheiro de confraria.

— Meu lado rebelde simplesmente decidiu “prefiro morrer a abdicar de tudo o que consegui até hoje. Não vou abdicar do meu sonho, da minha vida”.

Lembrou do sorriso de Edu e de suas palavras naquele instante.

— Você sabia que eu sou diabético?

— Se você continua a beber vinho, assim como eu não pretendo parar, vamos morrer como sempre fomos, ou seja, como amigos felizes — virou as costas a Edu e foi embora.

 

 ***

 

As coisas não foram tão simples como imaginava Leonardo. Estava estudando horas por dia, há meses, para obter o título de “Master of Wine”. Seria o segundo brasileiro a conseguir o feito.

Ainda pensando no médico, na doença, na peça que o destino resolvera lhe pregar, “chutou o balde”.

— Se não vou desistir dos vinhos, vou morrer. Se vou morrer, não vou deixar meus tesouros para herdeiro algum. Vai tomar no cu.

Abriu uma garrafa de Romanée Conti, La Tâche 1999. Deixou decantar enquanto foi tomar um banho. Antes deixou “as Quatro Estações de Vivaldi” rolando no cd.

No banho, o peso da vida caiu nos ombros. Tentou pensar na secretária gostosa, mas o pau nem fez menção de subir. Tentou pensar nos louros da fama que obteria com o título, mas o que faria com eles. Pensou na filha que se afastou dele após a separação há alguns anos.

Sentou no chão do box e simplesmente desabou. Chorou sem sentir o tempo passar. Quando teve forças pra levantar, colocou um moleton velho, daquele que não se usa nem na frente da empregada e sentou na cama, desolado.

Lembrou do vinho. Pensou: Pelo tempo, pelo menos a essa altura ele já “abriu”. Quanto sorveu o primeiro gole da jóia da Borgonha, fechou os olhos e deixou o prazer arrepiar da nuca aos pés. Exultou, gemeu, relaxou na poltrona. Vivaldi interagindo com o vinho; a essência de sua vida passando pelo olfato, paladar e audição. A soma mais sublime de sua vida.

Assim passada a tormenta, o passou o dia, passou a noite.

 

 ****

 

— Escuta, Leonardo — disse Edu, segurando-o pela camisa — ficar diabético não é o fim do mundo.

— Não mesmo. Fim do mundo é não dar tempo de beber toda a minha adega antes de morrer. Deve ter mais milhões em raridades, sem contar o valor afetivo disso tudo. Me prometa uma coisa, se eu entrar em coma antes de morrer, me abra a garrafa do vinho mais caro que sobrar na minha adega e mande injetar na minha veia.

— Pára de falar merda, idiota. Você não precisa parar de tomar vinho, pelo menos não no ritmo que quer continuar, mas precisa mudar de vida. Eu fiz isso, e você sabe que eu tomo bem.

— Mudar como? Olhe pra sua taça, quantas vezes na vida você degustou um Pétrus 1970?

— Bem, se não fosse você, nunca. Mas, note que eu sou diabético e estou tomando. Você não precisa se matar por isso. Basta se reeducar e se fizer tudo dosado vai poder até tomar vinho, desde que moderadamente. Eu faço exercícios, controlo a alimentação, perdi peso, controlo a glicemia rigorosamente. Com isso levo uma vida quase normal. Não parei com meus prazeres, apenas faço tudo moderadamente.

— EU NÃO QUERO VIVER MODERADAMENTE, CARALHO! Berrou com o amigo. Edu deu de ombros e não se fez de rogado, afinal, não iria desperdiçar um Chateau Pétrus por conta do chilique do amigo.

 

***

 

Meses depois

 

— Eduardo, aqui é o Victor. — Victor era o endocrinologista de Eduardo e Leonardo. — tenho uma má notícia, o Leonardo está em coma. Nós vamos ter que amputar a perna esquerda, mas ainda assim, a coisa não vai bem.

— Engraçado, ontem mesmo pensei nele. Abri um Sassicaia que ele me deu de presente. Estou indo aí.

A perna acabou sendo amputada e o estado de Leonardo chegou a níveis críticos por várias vezes. A triste ironia é que a sua avaliação como “Master of Wine”, se daria justamente no dia em que saiu do coma.

 

***

 

Dois anos depois

 

— Você tem certeza de que está pronto? — perguntou Edu.

— Sinceramente, não sei, mas agradeço por não ter feito a minha vontade.

Tinha deixado uma procuração com Edu, conferindo poderes para que vendesse sua adega e ficar com um terço que escolhesse (deu um terço ao amigo, posteriormente).

Com um copo de um Chateau d’Orschwihr na mão, um belíssimo gewürztraminer da Alsácia, Leonardo brindou com o amigo. — Hoje, graças a você e ao Victor, posso me dar ao luxo de tomar um belo vinho, sem a paranóia de ter que “engolir” os meus melhores rótulos antes de morrer.

Após sair do coma, com a ajuda do amigo e do médico, Leonardo, após ver a morte tão de perto, não apenas mudou seus hábitos, como investiu dinheiro em um programa de Victor, voltado para a conscientização de diabéticos “rebeldes”. Passou a fazer palestras e tudo mais.

Num primeiro momento, largou os cargos que tinha em várias entidades ligadas ao vinho, consultoria a restaurantes, revistas e tudo que lhe remetesse ao vinho. Da mesma forma, foi esquecido.

Aos poucos, sentindo-se seguro, com o apoio de Edu, reaprendeu a apreciar vinhos, sob outra ótica.

Aprendeu a apreciar a vida com outra ótica.

Foi através do amigo que muitas entidades, revistas, blogs, sites e afins, souberam de seu drama e, sem que soubesse, preparavam a redenção, uma homenagem por tanta luta. Uma surpresa que recompensava os esforços, tanto quanto as perdas. Ali, no palco do Teatro Municipal, não tinha palavras pra agradecer ou discursar.

Segurando uma taça vazia em uma das mãos e uma pequena seringa de insulina na outra, cruzou os braços e fez uma pequena reverência.

Nesse momento, apenas ele não chorou.

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2 comentário(s) sobre “O MESTRE DOS VINHOS

  1. Fala Marcelo!
    Um dia ainda vou entender a importância dos vinhos que você citou no seu conto …
    A diabetes do Leonardo que se dane!
    Abçs,
    Valentim

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