Contos & Crônicas - segunda-feira 11 junho 2012

JOANA DARK

Eu costumava freqüentar bastante aquele bar. Um cantinho de São Paulo destinado aos artistas do underground; músicos, poetas, escritores e toda a fauna do submundo cultural.

Nunca tinha visto aquela mulher antes. Cabelos negros e toda de preto; esguia e com um jeito estranho, de mulher solitária. Sentada no balcão, aparentemente tomando vodka.

Em geral, prefiro os vinhos, mas, sozinho na rua, tomo whisky, caipirinha; vinho sozinho, só em casa. Estava no segundo copo de Jack Daniel’s, pensando em um arranjo musical, quando vi a mulher olhando em minha direção, com olhos penetrantes e estranhamente gélidos, fiquei um pouco surpreso.

Fisicamente não sou o modelo que atrairia uma mulher desse tipo, jovem e bonita. Devia ser, pelo menos, dez anos mais nova.

Não estava ali em busca de aventura ou algo assim, apenas era o meu recanto. O lugar onde gosto de escutar boa música e encontrar amigos.

Mas, diante daquele chamado torto, não havia opção senão a de levantar e ir até a mulher de preto. Sentei ao seu lado e ela virou o rosto em direção ao espelho, mas continuou me encarando. Seus olhos eram claros, bem azuis, o que dava aquela sensação gélida e intimidante.

─ Oi, eu me chamo Thales.

─ Joana ─ não fez sinal de que estenderia a mão ou algo assim.

Joana Dark, pensei. Sorri com o pensamento.

─ Você está rindo.

─ Joana Dark.

─ Faz sentido, nunca ninguém me chamou assim, mas devem pensar. Não chega a ser um pensamento original, não acha?

─ Não mesmo, meio óbvio, até. Mas, foi inevitável. Nunca te vi por aqui.

─ Pois é, nunca vim mesmo. Já haviam me falado bem, parece bem legal. Boa música, vodka boa…─ depois de uns segundos e mais um gole, perguntou ─ o que você faz? Me disseram que aqui é um lugar de artistas.

─ Bem, eu sou músico. Você é do ramo?

─ Não, bem, profissionalmente, não. Escrevo poesia, mas trabalho como revisora de textos em uma editora. Sou formada em literatura. O que você toca?

─ Na verdade, hoje eu trabalho como produtor musical. Gosto de compor, mas, minhas tentativas como músico de palco não foram, digamos, bem sucedidas. Eu acabei descobrindo outro caminho, como produtor e não posso reclamar da sorte. Confesso que ainda gostaria de ver minhas músicas conhecidas, mas, a fase de sonhos já passou há muito.

E assim, a conversa fluiu. Falamos um pouco de nossas vidas, muito pouco pra falar a verdade. O fato é que acabamos na cama. Fomos para meu apartamento e embora já tivéssemos bebido um pouco, ainda abrimos uma garrafa de vinho…nunca tomo vodka e ela detestava whisky.

Linda, nua. Mais do que poderia pensar. Menos magra do que parecia. Com a taça de vinho à meia luz, fazia um belo quadro. Mas o vinho quase nos fez discutir, me disse que gostava de vinho, mas detestava a frescura das pessoas em relação aos rituais. E para me provar seu desprezo, tomou a garrafa e bebeu pelo gargalo. Um Borgonha de mais de cem reais, sorvido no gargalo.

Bem, entre a heresia e a cama, preferi a cama. Se saíssemos de novo, teria tempo pra discutir isso. Transamos a noite inteira. Se estou longe de ser bonito, nu ainda menos, mas, nessa época ainda resistia a uma noite de sexo moderado.

E assim, saímos, duas, dez e mais vezes. Estranhamente, Joana passou a se interessar por vinhos. No início, passou a saborear mais e melhor. Tenho que reconhecer que tinha um talento natural para aromas e sabores. Tenho “litragem” e até posso dizer que conheço bem a cultura do vinho, mas me impressionou a facilidade com que se adaptou a ela.

A poesia dela também me impressionou. Dura e profunda, mas que, por algum motivo, combinava bem com meus acordes e disso saíram músicas. Então me apaixonei.

Compomos juntos ao sabor dos vinhos. Algo inusitado aconteceu. Algumas cantoras e cantores começaram a pedir músicas para gravar. No espaço de três meses, saí do ostracismo e atribuí o inesperado sucesso às letras de Joana e não necessariamente à minha música.

Nesse meio tempo, por sua vez, a mulher que tomava vinho no gargalo desapareceu, assim como também a mulher que se orgulhava de tomar vodka sozinha, que celebrava a rudeza. Tornou-se requintada e como participava de eventos de vinhos, Joana sempre me acompanhava e cada vez mais, mostrava não apenas novos interesses como maior proficiência.

Aí começaram os problemas, pois a essa altura se tornou verdadeira enochata. Obsessiva e compulsiva, não apenas descobriu a harmonização, como isso se tornou verdadeira escravidão. O prazer de se tomar um vinho sem compromisso, por vezes virou tortura e as brigas vieram.

Seus textos eram um tanto gauche[1], mas se encaixavam nas minhas melodias. Sua forma de pensar, tão gauche quanto seus textos, tão dark quanto suas roupas, começaram a romper a névoa da paixão e quebrar o encanto.

Não sei quem encheu o saco primeiro, mas, o fato é que continuamos juntos compondo, tomando vinhos e brigando por nada, por tudo.

Com as composições, começou a ganhar dinheiro e mesmo na editora subiu, pois eu tinha certa influência no meio. Foi quando ela teve a idéia de criarmos um pequeno festival de música pra nos dar um pouco mais de visibilidade é que as coisas desandaram de vez.

Entre um vinho e outro…e mais outro, e mais outro, planejávamos o evento. Um inferno na Terra, vale dizer. Entre garrafas de chilenos e argentinos, franceses e italianos, muitos brasileiros, aumentamos bem a nossa litragem. Mas, o festival saiu.

A essa altura, o interesse sexual dela já era nitidamente menor e o meu interesse pelo lado gauche dela, idem. Algo de hostil aparecia aqui e ali, mas, nenhuma crise aparente. Apenas a sensação sufocante de suas manias obsessivas, afinal, profissionalmente, ao menos, estávamos em ascensão.

Às vésperas do evento, abri um vinho de guarda, que esperava para ocasião especial. Foi uma noite de paz, decantamos o vinho, namoramos como no início, com carinho e entrega. Tomamos o vinho, o qual levamos para a cama, bebi em seu corpo. Estávamos felizes.

O festival foi excelente e compensou o stress de organizá-lo. Artistas de MPB, fusion e jazz se alternaram, e algumas de nossas músicas realmente fizeram sucesso, na voz de uma cantora emergente.

No domingo, poucas horas do final do último show, Joana me disse que estava pensando em terminar. Não entendi bem, mas virei as costas, sem sequer perguntar os motivos.

Nunca mais a vi.

A boa ironia foi que a cantora emergente, logo após o evento, recebeu convite para gravar seu primeiro disco e me chamou para produzir. Mais taças de vinhos aqui e ali, estamos casados há alguns anos e alguns álbuns gravados.

Há poucos dias, estava lá no meu recanto, o mesmo bar underground com alguns amigos e minha mulher. Após um Chardonnay californiano, tomávamos um delicioso Pinotage sul africano.

Entrou uma mulher esguia, com um jeito estranho de mulher solitária. Os cabelos negros – agora – longos combinavam com o negrume das roupas.

Sarah, minha mulher, comentou comigo:

─ Aquela não parece a Joana? Ela está olhando tanto pra você.

Os mesmo olhar penetrante e estranhamente gélido, que já presenciara nesse mesmo bar. As mesmas roupas negras.

─ É, pode ser ─ respondi.

Podia ser a mesma mulher, mas não era Joana Dark.

 

 



[1] Gauche em tradução literal do francês significa esquerdo, mas no jargão literário quer dizer “torto”, “estranho”.

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3 comentário(s) sobre “JOANA DARK

    • Oi, André
      Desde o início, a minha proposta é fazer algo diferente mesmo, um pouco mais lúdico.
      Como escrevo sobre outros assuntos, resolvi juntar essas duas paixões.
      Que bom que gostou. Volte sempre!

      Enoabraços

      Cello Carneiro

  1. Muito legal você misturar vinho com contos. Eu escrevo crônicas e achei o seu texto muito bacana, bem humorado e “aromático” como um vinho.

    parabéns e santé

    Elianne Humel

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