Contos & Crônicas - sexta-feira 10 janeiro 2014

Eu e o meu velho Garrafão…


˗ Maravilha de São Roque ou Sangue de Boi?

˗ Qual o mais barato?

˗ Mesma coisa, meu filho!

˗ Me dá o “Maravilha”.

Tínhamos andado alguns quilômetros, da fazenda à vila. A pé, lógico, pra passar o tempo, já que não havia muito a fazer. Voltar carregando o garrafão não seria tão divertido, mas valeria a pena.

A ideia era passar a noite tocando violão, tomando um vinhozinho e, quem sabe, com muita sorte, ficar com a Marina. Como eu e, pelo menos, mais dois tocávamos violão, daria pra fazer revezamento, senão quem fica tocando direto, sempre se fode e não pega ninguém.

A noite começou bem, clara e cheia de estrelas. Fizemos uma fogueira pra dar aquele clima de luau. Marina estava linda; não que fosse uma garota realmente linda, mas, ela me encantava. Culta, inteligente e, como eu, fã de rock, era tudo que eu queria em uma garota.

Copos de plástico para o vinho, Renatinho se cortando tentando abrir a cápsula do garrafão. Nada sério, mas, era a desculpa certa pra não querer tocar violão. Assim, seríamos eu e Roni pra garantir o som e ele livre pra pegar mulher; já estávamos prevendo.

Roni era mais na linha Lulu Santos e Kid Abelha, e Renatinho, mais MPB. A minha praia era mais Neil Young, Simon & Garfunkel, Beatles, America e por aí vai.

A cantarola, como era de se esperar, começou com Lulu mesmo…Azul, Último Romântico, etc. Nunca toquei Lulu, mas sempre cantei bem. Daí a coisa continuou pelo pop/rock típico da época. Lá pelas tantas, alguém sempre pede “Andança”, “Travessia” e “Canteiros” e aí é hora do Renatinho assumir.

Como ele – esperadamente – tentou fugir da raia, assumi a viola e toquei algo de MPB. Kleiton & Kledir, Raul, Sá & Guarabira…Quando cantei “te amo espanhola”, olhei bem nos olhos de Marina. Ela pareceu gostar; seu olhar fixado no meu.

Não é que vem o Renatinho tentando me “crocodilar” e senta ao lado da Marina. O cara vem, pega o garrafão e serve dois copos, um para ele e outro pra ela, que sorri gentilmente. A minha vontade foi de arrebentar a corda do violão, truque usual quando via todo mundo se dando bem e eu fazendo seresta pra casal. Mas não ia adiantar, pois havia mais dois violões.

Bem, o jeito era continuar a tocar e aceitar a derrota, pois enquanto eu sempre fui tímido, Renatinho era o típico “cara do violão que pega todas”.

Pois bem, resolvi fazer o que fazia bem, e soltei meu repertório de Beatles e depois mandei bastante folk. Algumas baladas de classic rock eu sempre coloco no repertório e quando toquei Angie, dos Stones, pra minha surpresa, Marina levantou do lado do “traíra” e veio cantar ao meu lado. Em seguida, me olhou nos olhos e pediu que tocasse Love of my Life. O coração descompassou, mas fiz bem a minha parte e ela cantou comigo. Quando perguntou se eu tocava ’39 do mesmo álbum e eu respondi que não, ela simplesmente pediu o violão e a tocou. Acho que naquele momento me apaixonei de vez.

Ela continuou tocando e eu acompanhando na voz e na gaita…pura simbiose.

Acho que Renatinho se arrependeu e quis fazer bonito pra Marina, pois forçou a barra pra tocar e foi já apelando com “Andança”, “Travessia” e “Canteiros”. Ele, o conquistador não poderia perder pra mim, um típico “zero à esquerda”.

Continuamos cantando e vi que o seu copo estava vazio. Era hora de fazer bonito e lhe servi com estilo, uma novidade que acabara de aprender em Arraial do Cabo; apoiei o garrafão no ombro e segurando pela alça, coloquei o vinho lentamente em seu copo. Todo mundo arregalou os olhos.

Agi naturalmente como se aquele copo de plástico e o garrafão de vinho suave em meus ombros fossem a mais pura simbiose. Queria que seus olhos e os meus também o fossem. Seu sorriso, mais doce que o vinho me embriagou mais do que se tomasse o garrafão inteiro. Só queria sentir essa doçura em seus lábios.

Mas a timidez, minha inimiga e destruidora de sonhos – maldita – me tirou a coragem de aproveitar o momento. Momento que poderia jamais retornar.

Como se esperasse alguma ação, Marina ainda me fitou por alguns segundos…queria tanto beijá-la.

A magia do momento se quebrou e sabia que a minha chance havia passado.

Peguei o violão de volta. Toquei sem coragem de olhar para Marina, mas toquei com toda minha alma. Cantei Let It Be, minha música favorita, cantei para mim mesmo.

Pra piorar a situação, Renatinho retomou o ataque. Sabe quando a única saída é beber???? Então, bebi com majestade. Ainda vi quando o “traíra” tentou servir vinho para Marina com a minha nova técnica e se molhar todo; mas, quando vi a preocupação dela em ajudar a limpá-lo, “morri em mim”.

Engatei a sexta marcha e acelerei fundo no garrafão. A essa altura já não dava mais pra tocar violão. Lá pelas tantas, ficamos eu e o Guru batendo o mais verdadeiro “papo de doidão” tipo bebum x maconheiro às quatro da manhã.

Daí em diante, não me lembro mais de nada.

 

* * * * * * *

 

Alguém sabe o que é acordar com gosto de cabo de guarda-chuva na boca? O mais correto seria dizer gosto de grade de cemitério. Pois bem, essa é a sensação de que me lembro. A cabeça apertada no torno…o mundo girando em alta velocidade. O vômito e inevitável.

Enfim, um verdadeiro horror.

Após vomitar horrores, só queria poder dormir. Escutei sabe lá a que hora da manhã, que o povo ia até a cachoeira. A ideia era animadora, mas o corpo rejeitou a possibilidade.

Eu me senti um verdadeiro idiota. Por timidez, não fiquei com a menina por quem era apaixonado – que, aliás, ficou com outro; e ainda acordei numa ressaca colossal.

Lá pelas tantas o mundo parou de girar e creio que finalmente dormi. Fiquei sozinho na fazenda, pois todo o pessoal foi pra cachoeira e só voltou à tarde.

Hoje sei que foram horas, mas, pareceu que dormi por poucos minutos. Sonhei com Marina passando a mão no meu rosto. Acordei com Marina passando a mão no meu rosto.

Susto…O melhor susto da minha vida.

— Como você está? Você passou muito mal.

— Nossa! Isso é uma ressaca, o resto é brincadeira — Tentei gracejar.

— Vai lavar o rosto, vai. Isso vai te renovar um pouco. Você vomitou muito.

Devo ter corado de vergonha, pois, sorrindo ela me puxou pela mão.

— Anda, bobo.

Lógico que o mundo girou quando levantei e cabeça parecia que ia arrebentar, mas a dor de cabeça foi ainda pior. Mas tudo melhorou quando Marina me amparou. Hoje parece meio “Lagoa Azul”, mas juro que é verdade, a adrenalina foi tanta que dei uma melhorada boa.

— Vou entrar na ducha…

Na área da piscina tinha uma ducha de dar medo, de água da serra, a mesma da cachoeira. Tomei coragem e entrei…puta que pariu, pensei.

— Puta que pariu — gritei!

Marina gargalhava e nesses instantes parecia brilhar.

— Vem comer uma maçã, ajuda a limpar por dentro. A tia sempre tem maçã, meus primos vivem de ressaca — disse ainda rindo.

— Posso te perguntar uma coisa? Por que bebeu tanto?

— Você não vai ficar chateada?

— Claro que não — respondeu surpresa.

— Eu não queria ver você ficando com o Renatinho — a voz quase sumindo de vergonha.

Marina sorriu com aquele brilho que eu adorava.

— Quem disse que eu fiquei com ele bobo?

Eu fiquei sem palavras, me sentindo ainda mais idiota que nunca. Agora ela ia me achar ainda mais “jacu”. Baixei a cabeça.

Marina puxou meu queixo e me beijou.

— Eu só queria ficar com você, bobinho.

Fomos pra piscina…

 

* * * * * * *

 

Eu e Marina compusemos muitas músicas juntos com o passar dos anos. Ela se tornou profissional e conheceu seu marido numa sessão de gravação.

Ele, cantor, gravou algumas das nossas canções. Vivem bem da música, ao passo que me tornei jornalista. Sim, ganho royalties aqui e ali, ainda toco por hobbie, mas resolvi seguir outro caminho.

Sim, hoje tomo bons vinhos e odeio vinhos suaves. O estranho é que dentre tantos Borgonhas e Barolos, nenhum conseguiu repetir a mística daquele fim de semana.

Certa vez, o marido de Marina – grande especialista em vinhos – fez um encontro em sua casa, tipo “cada um leva o seu”. Cheguei com um garrafão de vinho e sob os olhares horrorizados de seus convidados, Marina chorou de tanto rir. Claro, estava  com uma garrafa de Chablis escondida e, no final, todo mundo entendeu a brincadeira.

Mas só marina entendeu realmente a brincadeira…

 

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