Contos & Crônicas - segunda-feira 31 dezembro 2012

Conversa de amiga…

 Eu acabara de me separar pela segunda vez. Fiquei casada com Mário por dez anos. Muito tempo até.

Só não entendo como esperei tanto tempo pra sair daquela vida infernal. A casa parecia antes um manicômio do que um lar. Só pode ser a porra do sexo, pois é a única coisa que o desgraçado fazia bem.

Afinal, longe de ser uma garotinha, a insegurança de ficar sozinha aos 40, fazer a gente pensar muitas vezes antes de separar…pode acreditar.

Não tivemos filhos, eu não posso ter mais filhos. Esse – em tese – foi o motivo de ter acabado o meu primeiro casamento. Tínhamos um pouco menos de dezoito anos e eu engravidei. Meus pais pressionaram pra casarmos e, como eu esperava acabou dando merda. Ricardo era o capeta encarnado. Em menos de um ano, após quilos de cocaína, maconha e álcool, ele foi embora dizendo que eu não podia ter filhos. Só não disse que eu perdi nosso filho porque ele, “cheirado” porrou o carro e eu tive um monte de complicações.

Já foi tarde, lógico!

O engraçado é que as pessoas acham que a gente separa por opção; não colocam na balança que pode ser falta de opção. Logo que separei, saí com amigas do trabalho, da academia, com velhas amigas, enfim, de certa forma, tentei me esquecer da frustração do casamento, achando que ia encontrando diversão.

Acontece que pra transar sem amor, ou pelo menos carinho, era melhor ter ficado casada. Pra ser um depósito de esperma, não precisava ter saído de casa, pois sexo eu tinha. Foi então que resolvi me fechar e refletir um pouco sobre a minha vida.

Mas a vida é foda, sabia? Tem gente que diz que destino não existe…o caralho, que não! Logo quando eu resolvi fechar pra balanço, aparece o Lucca. Algo me disse que não era pra ir no aniversário do meu irmão…ainda vez que mandei a voz se foder e fui, pois encontrei esse diamante.

Eu sou boca suja, dou gargalhada alta, enfim, nunca tive modos segundo a minha mãe. Engraçado é que o meu irmão sempre fez o estilo “bacana”; meio cabeção, bom garoto. Ele é um doce, mas, enquanto a minha turma entornava vodka, ele e a galera dele iam ao teatro, tomavam vinho, curtiam exposições e tudo mais.

O menininho bom exemplo e a irmã rebelde que enchia a cara, que casou grávida e depois casou com um louco ainda pior. Durante muitos anos descontei nele a mágoa que tinha de mim mesma. Por isso, resolvi ir ao seu aniversário.

Sei que mesmo aos quarenta ainda sou uma mulher atraente. Nunca fui um mulherão, mas sempre me cuidei e a natureza deu uma força. Nunca fui culta como meu irmão, mas, crescemos em um ambiente de muita cultura e isso nunca se perde.

Esperava, portanto, uma galera metida à besta, falando de seus carrões, de vinho caro, de casa de praia na casa do caralho e tudo mais. Não é que o pessoal era legal! Aí já não sei se é sorte ou destino, nessa época, eu já não bebia mais em quantidades homéricas, pelo contrário, bebia pouco. Vinho barato, caipirinha…tomei birra da porra da cerveja por causa do Mário.

Lá pelas tantas, o papo, sabe-se lá porque, acabou caindo em assunto financeiro. Depois que me separei do Ricardo, voltei a estudar e fiz economia. Acabei dando sorte fui empregada na empresa de consultoria onde estagiava. Uma coisa surreal pra mim, numa festa de aniversário a galera discutindo política econômica. O pior foi que eu acabei entrando de cabeça, pois entendia mesmo do assunto.

Perguntei ao meu irmão se não tinha um prosecco mais docinho, e ele gentilmente me passou a mão pelo rosto. O coroa do meu lado – o Lucca, lógico – perguntou se eu não gostava muito de vinho. Respondi que sim, mas que não entendia muito, o que era verdade.

Aí que a coisa começou a pegar. Na hora do jantar, serviram um vinho brasileiro com várias uvas…Deus do céu, que coisa esquisita!!! Era interessante, mas, muito esquisito. Lucca, sentado na mesma mesa, sentiu meu desconforto e disse que ia melhorar muito com a comida. Não é que o filho da puta estava certo! Parecia outro vinho. Comentei com ele o que achei e acabamos conversando…pior, acabamos na cama.

Antes que pensem que foi bebedeira, nada feito. Apenas a conversa fluiu como nunca me lembro de ter acontecido antes na minha vida. Lucca também era separado e, como eu estava num processo de reengenharia.

Delicado, me fazia sentir vergonha do tempo que vivi com Mário, aquele ogro corintiano sindicalizado. Mesmo morrendo de medo, acabamos namorando. Enquanto eu estava acostumada com um bando de loucos enchendo a cara de cerveja e esperando a hora do futebol, meus domingos eram regados a calmaria, vinhos e muito carinho.

Aos poucos, passei a gostar mais dos espumantes brut. Nunca foi o caso de ficar tomando Champagne, pois nunca nadamos em dinheiro, mas no fim de ano, nos dávamos esse luxo. Passei a admirar vinhos brancos, antes detestáveis. Os roses se tornaram comuns na beira da piscina.

Lucca adorava frutos do mar e assim, conheci Chablis. Vieram os Borgonhas, Bordeaux, super Toscanos, vinhos do Priorato e muita coisa interessante.

Não creio que venha a me tornar uma grande conhecedora, mesmo porque, odeio enochatos e sempre tem um por perto, quando o papo vira vinho.

O curioso é que quando fomos morar juntos, Lucca estava pra mudar de São Paulo para o interior do Rio, por motivo de trabalho. Mesmo morrendo de medo, encarei a aventura e fomos morar em Penedo, um lugar fresco e aconchegante. Foi a gota d’água…os vinhos se tornaram parte inseparável da minha vida.

Se eu tomo muito? Muito menos do que poderia.

É que pra não ficar sem fazer nada, pensamos em montar algum negócio. Compramos um ponto comercial, uma lojinha de artesanato, mas logo descobrimos que não tinha onde comprar vinhos diferentes por ali e acabamos montando uma delicatessen. Bem, não dá rios de dinheiro, mas dá pra tomar bons vinhos a preço de custo.

Quanto ao Lucca???? Tudo bem que já não tem mais a mesma “pegada” na cama, mas sempre me toca com carinho. De vez em quando um Cialis coloca um pouco de fervura na mistura (rsss).

Quanto a mim??? Tudo bem a natureza já não ajuda mais como antes, mas com Lucca tenho algo que nunca tive antes…Paz.

Reinventar a vida não exige grandes sonhos. Pelo contrário, aprendi que a simplicidade é o melhor caminho. Cuidar de quem ama, viver um dia de cada vez. Nenhum grande segredo, mas um caminho que exige entrega e isso nem sempre é fácil.

Minha vida já foi um inferno. Já me atraquei com marido bêbado, já acordei sem saber onde estava, já pensei em me matar.

Hoje, uma taça de vinho em uma das mãos e a mão do Lucca na outra, são os meus maiores tesouros.

Quanto a você??? Ainda vai ficar mentindo pra si mesma???? Olhe pra mim e para o seu pai e veja que ainda é tempo. Sempre há tempo…

 

Resende, 30/12/2012

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