Artigos - terça-feira 25 março 2014

O Vinho e a Rede Globo: Dramaturgia de Garrafão…

Pois bem, a minissérie “Amores Roubados”, causou furor no Mundo dos Vinhos.

Seja no Facebook ou diretamente nos Blogs, pulularam artigos e posts sobre a minissérie e o papel do vinho (e do sommelier) na mesma.

No entanto, achei melhor escrever depois de baixar a poeira, tanto para não ser apenas mais um artigo no tiroteio, quanto para poder fazer uma análise mais isenta. Durante esse tempo, vale dizer, li efetivamente muito do que foi postado em vários blogs e no Facebook, seja contra, seja a favor.

Daí que li críticas à atuação de Cauã Reymond e suas declarações sobre ter feito curso e tudo mais. As críticas mais duras vieram de sommeliers, que consideraram um acinte à profissão.

Bem, confesso que – por razões pessoais – não assisto novela há mais de vinte anos, mas a julgar pelas aberrações jurídicas, de que tomo conhecimento – em especial – através dos meus curiosos alunos de Direito; cada novela da emissora, haveria de gerar uma avalanche de reclamações da OAB.

Li também, muitas críticas negativas, no sentido que a minissérie era um desserviço ao Vinho Nacional, assim como li outras positivas em sentido exatamente oposto. Inclusive, amigos se posicionando contra e a favor, diga-se.

Bem, particularmente, nada espero da dramaturgia da Rede Globo, calcado em puro populismo e, via de regra, bastante apelativo, sobretudo no aspecto sexual. Em se tratando de vinho, não surpreende que a minissérie em questão seja uma “dramaturgia de garrafão”, se me permitem a analogia com os vinhos fáceis de beber e sem grande profundidade.

A questão primária é: Até onde isso beneficia ou prejudica a imagem do vinho nacional?

Mas resta a questão secundária: Existe mesmo o desejo de se transformar o vinho brasileiro em “objeto de desejo popular”?

Em relação à primeira questão, tenho por certo que essa minissérie tende a abrir muito mais o caminho para o grande público, do que, por exemplo, a bem intencionada, mas – a meu ver – mal dimensionada tentativa do Ibravin de vincular o vinho ao Carnaval; antes de qualquer coisa, pela penetração absurda que a Rede Globo tem nos lares brasileiros.

Demais disso, particularmente, creio que se a intenção do nosso mercado é realmente popularizar o vinho, em termos de mídia, não existe veículo mais eficiente. No Brasil, que eu saiba, ninguém começa no mundo dos vinhos tomando Bordeaux. O caminho básico é o garrafão, o vinho suave, os chilenos e argentinos de “combate” e assim por diante.

O vinho com sua imagem elitizada muitas vezes, afasta o potencial apreciador, intimidado com os excessos de enochatos, luxo excessivo e esnobismo, e mesmo sommeliers que não sabem os seus limites. Conheço pessoas que trocaram vinho por caipirinha em restaurante por se intimidarem com a “pressão” do sommelier, outras porque têm medo de não saber pedir e assim por diante.

Em suma, a nossa cultura atual do vinho faz muito para afastar potenciais consumidores. A popularização se dá naturalmente quando os veículos de comunicação começam a tratar assuntos que antes eram distantes, em temas cotidianos.

Nesse diapasão, o mesmo pode se dar com os vinhos.

Agora, em relação a segunda premissa, vi no calor das discussões, um número imenso de posicionamentos que me levaram a pensar se existe realmente a vontade de que o vinho se torne um objeto de alcance popular.

Claro, não estamos falando aqui dos produtores – cujo sonho, obviamente é popularizar mais o consumo de vinhos.

O que me chamou a atenção foi a postura efetivamente elitista, (nem sempre assumida, claro) no sentido de que essa popularização não é bem vinda.

Hoje, quem entende de vinhos é uma pessoa tida como sofisticada, de gostos refinados. Isso gera, naturalmente, certa admiração – em especial – nas pessoas que gostariam de passar uma imagem mais refinada.

Assim, quando aquele pagodeiro que você detesta aparecer no seu novo videoclip abrindo toneladas de Champagne Möet, qual será a reação?

Foram várias as formulações nesse sentido. Ou seja, não foi uma posição isolada aqui e ali. O que ficou claro pra mim é que muita gente simplesmente não gostaria de ver vinho como objeto do desejo popular.

Bem, claro que é uma impressão pessoal. Particularmente, acho isso uma grande bobagem e não vou de tomar meus vinhos, em razão de um preconceito ridículo.

Me perguntaram em off (claro!): “E se o público do seu site passar a ser um monte de gente que nem sabe ler, a turma do “rolézinho”, você acha que vale a pena?” Repito aqui a minha resposta: “Se um dia, por algum motivo, não conseguir mais me comunicar com o meu público, seja qual for o motivo, eu simplesmente paro de escrever; mas, sob pretexto algum, eu paro de tomar meus vinhos porque alguém que leva uma vida mais simples do que eu também toma”…não houve réplica.

Enfim, se o caminho é popularizar o consumo de vinhos no Brasil – e que não pensem que o vinho se tornará popular como a cerveja – o caminho é dar mesmo ampla visualização; e não será fazendo propaganda em revistas especializadas que isso irá acontecer.

Quem viver verá…

 

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